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Como usar o construtivismo nas aulas?

A palavra construtivismo virou um certo ‘modismo’.

Dificilmente encontraremos projetos ou pessoas envolvidas com educação que não utilizem pelo menos algumas vezes em seu discurso expressões como “construir conhecimento”, “proposta construtivista”, ou “busca de autonomia”.

Mas será que isso realmente reflete sua prática?

É bastante comum, infelizmente, essas frases de efeito ficarem apenas no papel e na realidade as ações educacionais serem de transferência, reprodução ou automatismo.

Estamos longe de dar uma “receita” de como o construtivismo deve ser usado, mas apontamos alguns caminhos possíveis.

Para trabalhar pautado no construtivismo, é indispensável saber que o erro é um elemento motor do conhecimento e considerar o conhecimento prévio.

O processo de ensino-aprendizagem pautado no construtivismo

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O aluno traz para a sala de aula, previamente ao processo de ensino, concepções alternativas dos conceitos e fenômenos, que o professor deve considerar e respeitar.

Respeitar o senso comum do estudante obviamente não significa que o educador deva manter-se nele.

Mas que deva, sim, tomá-lo na importante condição de ponto-de-partida para o aprendizado, e comprometer-se no processo de sua necessária superação.

O aprendizado ocorre por meio da mudança conceitual.

O professor deve ser capaz de perceber quais são os obstáculos de conhecimento presentes nos alunos durante o ensino, e orientá-los em direção ao conhecimento científico coletivamente aceito.

Para isso, o professor deve ter também consciência dos seus próprios obstáculos epistemológicos e saber meios de lidar com eles.

O envolvimento ativo do aprendiz na construção do conhecimento acontece quando este está motivado para a busca de soluções.

Mas como promover situações de aprendizagem motivadoras?

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Promovendo atividades de caráter investigativo.

O aprendizado também é favorecido pelas interações sociais entre os sujeitos.

A comunicação entre professor e aprendiz (e também entre aprendizes) é indispensável em uma aula com preceitos construtivistas.

O conhecimento é construído junto. Professor e alunos.

Esqueça aquela ideia de que o professor transmite o conhecimento.

Falar e ouvir as concepções de colegas em mesmo nível de aprendizagem serve também ao propósito de explicitar de forma verbal a compreensão de um conceito.

Muitas vezes essa compreensão coincide com a que está em construção pelo sujeito, mas que este não conseguiria expressá-la com clareza, em que pese consiga identificá-la na fala do outro.

Serve também como exercício de argumentação, quanto um aluno tenta convencer o outro da sua compreensão.

Essa troca entre alunos e generalizações de conceitos é também uma das tarefas do professor enquanto mediador do processo de construção do conhecimento.

Quesitos que caracterizam um ambiente construtivista

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Dar aulas constantemente “criativas”, “inovadoras”, “diferenciadas”, “dialogadas”, que gerem “conflito cognitivo”, na tentativa de colocar em prática o construtivismo, é difícil, para não dizer inviável, diante das condições reais do ensino.

Sabemos do desgaste físico e mental nos professores, quando se tem pelo menos 8 horas seguidas de trabalho, ou jornadas que vão de manhã à noite, em classes com 40 a 45 alunos.

Um simples debate nessas condições torna-se um desafio sem igual se todos quiserem se expressar.

Para dar conta de sua jornada, o professor tem que buscar alternativas de ação que não sejam tão desgastantes e a cópia e a exposição oral parecem vir a calhar, mesmo sabendo que isso vai contra todas as teorias construtivistas.

Ensinar é uma atividade que envolve, além de organizar a aula, corrigir os alunos, avaliar, selecionar atividades, entre outras atribuições características da docência e que não são valorizadas no construtivismo pedagógico, muito menos nos slogans.

Sabemos de todas essas dificuldades e sabemos também que não é suficiente ficar de fora sugerindo aos professores o que podem fazer para tornar suas aulas “desafiadoras” para os alunos.

Mesmo porque não é só com o desafio que se aprende.

Aprende-se também nas rotinas, na cópia, na pergunta previsível.

Aprende-se desde que nestas atividades haja ação mental.

Desde que se atinja o pensamento do aluno, desde que se mostre a relação do conhecimento com aquilo que ele conhece e experienciou.

Desde que o professor apresente objetos sobre os quais o aluno tem capacidades desenvolvidas o suficiente para poder pensar sobre o que está sendo apresentado, dando-lhe significado.

Para viabilizar o construtivismo na sala de aula é fundamental perceber que o professor pode ensinar discutindo a elaboração e apresentando pistas para o aluno chegar ao conhecimento.

Pode também abordar (de forma expositiva ou não) perspectivas e procedimentos necessários à elaboração dos conhecimentos.

O construtivismo na prática não significa deixar a classe sem regras ou o aluno livre para agir, o que poderia fomentar a indisciplina.

Condução de uma aula de forma menos rígida não pode ser confundida como uma característica construtivista da prática docente. Não é.

Apesar das inúmeras dificuldades e de talvez não ser possível ter 100% do tempo uma prática construtivista, ainda é possível usar o construtivismo.

As salas construtivistas são classes em que as perguntas dos alunos são muito valorizadas e eles trabalham em grupo.

A ênfase é nos grandes conceitos.

As atividades devem se basear na “manipulação” e no contato com fontes primárias de dados.

Imaginamos, em Ciências, que as fontes primárias de dados a que esses autores se referem poderiam ser entendidas como atividades em que o aluno manuseia mapas, observa e manipula animais e plantas vivos ou conservados, coleta amostras, sai a campo, realiza experimentos.

As características mais notáveis da prática dos professores que podem ser consideradas construtivistas são:

1. Considerar as ideias dos alunos para explicar, interagindo com elas, de modo que, conhecendo o que os alunos pensam, possam conduzir a aula;

2. Aproximar o conteúdo escolar dos conhecimentos cotidianos e experiências dos alunos, relacionando, assim, os conhecimentos considerados abstratos e complexos ao que já sabem;

3. Valorizar o questionamento como estratégia didática, com perguntas que incentivam a ação mental dos alunos e a interação professor-aluno.

Para quem quiser ler mais sobre o assunto recomendo este livro.

By | 2018-09-26T21:23:42+00:00 13.08.17|0 Comentários

Sobre o Autor:

Graduada em Ciências Biológicas (licenciatura) pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais, Mestre em Ciências (ênfase Ensino de Biologia) pela Universidade de São Paulo. Trabalha com biologia geral, com ênfase em estratégicas didáticas e linguagem.

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